domingo, 29 de agosto de 2010

Vigésimo Oitavo - Verbete Promiscuidade

Promíscuo adj. Misturado sem ordem; confuso; indistinto. => Promiscuidade.
(Dicionário Luft, 1996).

Foi a melhor definição que encontrei, aqui mesmo, no meu dicionário de bolso.

Primeiro ponto: eu não consigo ser assim. E entendam que há três dimensões nisso:
a do orgulho (de ter apenas relações que realmente valem a pena, e não ficar tateando até achar) ;
a da incompetência (eu não consigo ser promíscuo) ;
e a da inveja (sim, todos nós temos um lado puramente hedonista que fica se coçando).

Primeiro de tudo, eu sou um cara emocional. Sentimental, sincero, não emo. E pela definição que eu conheço, pessoas assim não são promíscuas. Não conseguem ser. Por incompetência ou por orgulho.

Aí vem algumas pessoas dizendo que com o tempo, a pessoa se torna promíscua. Mentira. Isso é desculpa de quem só teve namoros estranhos, e decidiu jogar a toalha pra "aproveitar" a vida.
O que obteve? O que obtem? Provavelmente, ficantes bizarros.

Aí essas pessoas transam com qualquer um que lhe fale meia dúzia de palavrinhas "mágicas". (Despeja aspas duplas nisso aí). Homens, mulheres, gays, lésbicas, tanto faz. A separação aqui deve se dar entre "hedonistas" e "orgulhosos", não entre gênero ou opção sexual.

Não quero ser moralista. Aliás, se eu quisesse ser, eu seria o cara mais incoerente deste imundo planetinha. Só quero dizer que ser "orgulhoso", ao contrário do que o senso comum diz, pode ser bom, porque se vive mais o que realmente vale a pena ser vivido, e não tratar a própria vida como um leilão.

Um leilão que tem como lema a frase "Carpe Diem et Noctem". Um leilão aonde quem tiver mais lábia, mais atributos físicos, leva uma noite de putaria e nada mais.

Isto é o ápice do pensamento altamente desenvolvido que se criou na última década: "A fila anda". Eu não tenho fila, eu tenho sentimentos. É claro que nosso sentido hedonista deve ser preenchido, suplantado, sustentado, mas com relações saudáveis, e não com junkie food.




é, eu não vou mudar ninguém com este post (o que seria intencional, se possível), mas...c'est la vie, anacoreta.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Vigésimo Sétimo - O Tempo Perdido

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...
Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder...

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens...


Inevitável, começar a falar sobre um assunto desses sem lembrar dessa música.

Eu estou tentando apagar todo o meu passado, que foi bom, que foi aventureiro, que foi audacioso, mas que não passa de passado. Estou tentando, com todas as minhas forças, buscar gente nova, conceitos novos, sentimentos novos, enfim. Mas é desconfortável olhar em volta e perceber que todas as pessoas (mesmo as que se quer bem) estão em melhores situações que você. Não é inveja, ou pelo menos, não com esta intenção. É que simplesmente sinto que meu tempo está todo sendo perdido. Tudo, fisicamente, mentalmente, tudo está se esvaindo.

Eu discordo, no meu caso em particular, daquela frase que diz que o homem só envelhece quando ele pára de aprender. Estou sempre aprendendo, seja lá o que for, mas isso não rejuvenesce. Se eu parasse de aprender, ia ser somente (mais um) desinformado, desatualizado, absurdo. É "popular" ser assim, em muitos meios sociais. A população recebe pouquíssimos incentivos à cultura - portanto, eu seria até mais feliz. Mas seria uma felicidade que vai contra a minha essência.

Eu estou envelhecendo, e sinto isso rapidamente em mim, a cada dia. O envelhecimento tem muito mais relação com a intensidade do instinto de auto-preservação do que, de fato, o aprendizado que se leva. Tenho uma tendência a ser auto-destrutivo, por conta dos poucos prazeres que posso sentir. Me privar deste lado "suicida" é também me privar dos meus prazeres.

Tem gente muito mais conservadora que eu (mentalmente) que transa de 2 a 3 vezes por semana, com pessoas diferentes. Sempre têm assunto pra contar. E se tem uma infelicidade amorosa, tudo bem, existem mais pessoas relacionadas, e ainda há o permanente poder de sedução sobre novas pessoas.

O que eu posso falar, fazer, perante situações dessas? Me sentir constrangido, envergonhado, triste, por não aproveitar minha juventude. Por não PODER aproveitar. Seja por incompetência, seja por falta de oportunidade, seja por modernismos alheios que ainda não entendo.

O tempo vai passando, e eu vou me destruindo. Eu não tenho pena de mim mesmo, apesar de muitos dizerem que me martirizo. É a verdade que busco - a verdade que percebo é da incompetência mesclada com falta de sorte, em potências elevadas.


Eu vou morrer numa taverna. Bebendo, pseudo-felicidade. A inteligência queimada pelo álcool. A esperança de mudar, idém.

sábado, 14 de agosto de 2010

Vigésimo Sexto - "Somente para visitar"

Não, este post não é um poema solto. É um pensamento meu, sobre o que vivi emocionalmente até este exato minuto. É bom ter momentos em que pode se olhar tudo "de cima", e opinar sobre si mesmo, mesmo que seja falando sozinho neste blog.

Este post começou a surgir quando tive a brilhante ideia de ouvir novamente, depois de um tempo considerável (entre um e dois anos após) uma música que sempre me emociona muito quando ouço. Posso estar triste, feliz, amando alguém ou completamente sozinho, sempre choro ouvindo esta canção: "Nur zu Besuch" ("Somente para visitar", literalmente, do alemão), da banda Die Toten Hosen.

http://www.youtube.com/watch?v=sOzMWu0awMY

A letra não fala, incrivelmente, de amor. Fala da morte do pai do vocalista da banda, em uma metáfora muito bonita. Alguns trechos traduzidos aqui são veiculados, antes que eu encerre o meu raciocínio:

"Sempre quando te visito, me sinto sem limites,
Todo o resto está muito longe daqui.



Me agrada o silêncio daqui, dentre todas as árvores.

É como se a paz na Terra realmente existisse.

(...)

Trago flores comigo, não sei se você vai gostar,

antigamente, você se alegrava bastante.



Como eu estou, você sempre me faz esta pergunta,

eu estou bem, não quero te causar preocupação.

E então converso contigo, como sempre,

como se ainda fosse cedo,

como se tivéssemos todo o tempo do mundo.


Eu sinto você perto de mim,
posso ouvir sua voz ao vento,
e quando chove, sei que você as vezes chora
até o sol brilhar, até ele brilhar novamente.

(...)

E vou sempre ao correio, com grandes cartas endereçadas a ti,
mesmo todos sabendo que você já se mudou.

E então, eu converso contigo, como sempre,
e eu te prometo, nós teremos, a qualquer momento,
todo tempo do mundo.

E então vamos nos rever,
você pode se preocupar, quando quiser,
que neste dia, o sol também brilhará sobre minha lápide,
até o sol brilhar, até ele brilhar novamente."

Esta letra me lembra conceitos muito próximos do meu "ideal" amoroso, um tanto quanto romântico a moda antiga. O trecho do ramo de flores entregue sem expectativa de 'retorno', do "não quero te causar preocupação" e da carta endereçada para o endereço errado, são exemplos.
São coisas pequenas, de um comportamento que não se percebe mais. Isto é o meu ideal emotivo até hoje. Entretanto, eu fui obrigado a "esquecer", a ignorar tudo isso com o passar do tempo, com o calejar do rosto e do coração. Em nome da modernidade: este "idioma" comum entre a maior parte das pessoas. Esta modernidade que põe como ideal objetos, e não sentimentos, situações, pessoas. A modernidade pressupõe a banalização. E também pressupõe (a banalização d)o fútil.
É engraçado perceber a transição de um romântico "até-as-últimas-consequências", como já fui, para um cara tentando se passar por moderno (sem o sucesso que espero). Engraçado mesmo, cômico. Porque a gente acaba se moldando por aquilo que os outros querem que a gente seja (visando maior aceitação), e não aquilo que queremos de verdade (por mais antiquado que possa parecer).
A modernidade nunca trará o sucesso emocional que espero. Somente trará, em seus fúteis desfechos, desilusão e banalização do que (ainda) pode se sentir por alguém.

Mas, seguirei (ou seguiremos) assim, fiel(éis) fingidor(es). Porque ser moderno é mais "prático", é mais jovem mesmo. #ironia